domingo, 6 de março de 2016

Depois da chegada dos europeus: a África Atlântica

O artigo é o capítulo 1.2 da minha monografia (Histórias Comparadas: Apontamentos sobre o funcionamento e manutenção dos regimes escravistas no Brasil e na África), defendida em julho de 2008 na Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES sob orientação de Alysson Luiz Freitas de Jesus.



Desde o período antigo havia contatos de europeus com africanos. No entanto, foi à partir do século XV que esse contato se intensifica devido o aumento do tráfico de escravo, principalmente via Oceano Atlântico[1]. Portugal, no século XV, assim como toda a Europa, passava por crise de metais preciosos, principalmente para comprar as especiarias vindas da Ásia, como: “A pimenta, o pimentão, a canela, o gengibre, constituíam, como os tecidos preciosos, a seda e o índigo, os principais artigos importados da Ásia”[2]. O comércio de especiarias, além de ter o problema da dificuldade em conseguir metal precioso, os produtos passavam por muitas mãos de modo que o consumidor final pagaria um preço altíssimo. Juntando esses fatores ao desejo de conhecer Prestes João (lendário e um rei poderoso econômica, social e politicamente, além de detentor de forças sobrenaturais) para combater os islâmicos, já que acreditava-se que eram infiéis, fez com que D. Henrique de Portugal incentivasse a criação e absorção de tecnologia para conseguir “almas” para Cristo e comércio mais favorável, criando uma nova rota para as especiarias.

Felizmente, os navegadores europeus tinham aperfeiçoado um tipo de veleiro robusto com superestruturas elevadas, que resistia bem ao mar alto: a caravela. Se a isto acrescentarmos a adoção da pólvora para canhão, inventada pelos chineses, e a sua adaptação às armas de fogo, o emprego da bússola e a invenção de um novo tipo de leme, vê-se que estavam reunidos os meios técnicos necessários para a realização dos objetivos europeus[3].


            Então, apesar de hostilidade e indecisão dos europeus em encarar a aventura do Oceano Atlântico, eles o fizeram intensificando o contato entre a Europa e a África.
            Voltando a África, ela era detentora de culturas diferentes entre si e, ao comparar com os europeus, as divergências também eram enormes. A África Atlântica seguiu o padrão diversificado do restante do continente. Segundo Rodrigo Castro Rezende, que trabalha na perspectiva das identidades culturais, suas origens e a interpretação de ambas em várias culturas em sua dissertação de mestrado intitulada – As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas - disse que as relações portuguesas na África, à partir do século XV, poderiam ser pela força, impondo o Império Português, reprimindo líderes e a população, instituindo a catequese, a língua portuguesa e outras ações ou pela negociação, fazendo uso de alianças comerciais, por exemplo.
E de acordo com o mesmo autor:

A África ocidental foi a primeira região africana com que os exploradores portugueses tiveram contato. Região cercada pelo deserto do Saara ao norte e pelo oceano Atlântico ao sul, seus habitantes apresentavam uma infinidade de línguas e religiões diferentes, mas que em todo o caso, tinham como característica comum, a centralização do poder político[4].


            Com a chegada dos portugueses, o comércio passa a ser pouco a pouco orientado para o Oceano Atlântico ao invés da tradicional via Deserto do Saara, além de ter aumentado o número do tráfico de escravo. Ao longo dos fatos, o comércio escravista pelo Oceano superou o que era feito pelo deserto[5]. Essa mudança de foco fez com que regiões ficassem importantes no ponto de vista comercial e financeiro:

Com a chegada dos portugueses (...) tudo mudou. Eles queriam virar para o lado do Atlântico o comércio do Sudão e da Senegâmbia, dirigido, tradicionalmente ao norte, via Saara. A abertura para o Atlântico fez crescer a importância sociopolítica da região como eixo de penetração de interesses europeus e como desembocadura de produtos do interior para a costa[6].


Os portugueses faziam negociações com os senegâmbios desde o ano de 1445 e tinham como intermediárias pessoas denominadas de lançados ou tangomanos. Eles eram cristãos-novos e eram geralmente casados com mulheres locais e, dessa forma, entraram em processo de “africanização” (termo usado para pessoas de origem européia que por causa da convivência na África adota de forma significativa códigos e valores de alguma etnia africana). Os lançados foram responsáveis por uma extensa miscigenação sangüínea e cultural. Participaram de ritos de passagens como: casamentos a moda de uma etnia africana, tatuagem e juramentos de sangue, além de participarem de provas mágicas e em alguns casos tornaram bígamos. Assim, percebemos uma nítida africanização e, por causa disso, os lançados perderam vínculo com Portugal colaborando com a ascensão do comércio holandês, inglês e francês e, esta realidade fez com que, poucos escravos da região da Senegâmbia viessem para o Brasil já que grande parte dos lançados era descendente de portugueses ou um lusitano[7].
            Já na Costa do Ouro, Portugal começou a negociar produtos para adquirir escravos e ouro, além de reconhecer a soberania do rei de Mina. Com a União Ibérica, em 1580, a Holanda passa a rivalizar com os portugueses quebrando com a hegemonia dos lusos. E, além do mais, com a quebra de predomínio português na Costa Ocidental beneficiou os Estados africanos já que teriam mais controle sobre os produtos e o aumento da procura de escravos, por exemplo. [8] Mas essa região africana também foi beneficiada com a presença do tráfico: “A chegada de produtos americanos e asiáticos, introduzidos pelos europeus, diversificou as culturas. Milho, mandioca, tomate, cebola, berinjela, batata-doce e girassol contribuíram para acelerar o crescimento das populações”[9].
            No entanto, as relações portuguesas e brasílicas foram tensas e na África Ocidental. O islamismo colaborou para reduzir a influência do Império Português. Já as relações portuguesas e brasílicas na África Centro Ocidental foram mais amistosas em relação a porção Ocidental do continente[10]. No Congo, africanos eram aportuguesados ao viajar à passeio para Portugal e Afonso I, que foi rei do Congo, entre 1506 e 1543, adotou uma política de abertura com os portugueses. “O novo soberano cristão tinha profunda admiração pelas ciências e técnicas européias, compreendendo rapidamente que dela poderia extrair benefícios. Além disso, ao suceder seu pai, quis fazer do catolicismo a religião do Estado”[11]. No entanto, o catolicismo apesar de ter uma certa aceitação era muito superficial e dotado, primeiramente, de conveniência política entre animistas e católicos enfraquecendo, assim, a influência lusa. “Assim, logo as disputas internas pelo poder no Congo entre as facções animistas e cristãs fizeram com que boa parte da nobreza congolesa se tornasse anti-portuguesa e rompesse as alianças amigáveis entre os ‘reinos’ de Portugal e do Congo”[12]. Dessa forma, foram vistas várias guerras civis no Congo e os traficantes europeus não portugueses acabaram por dominar a costa congolesa reduzindo as influências comerciais, culturais e religiosas lusitana.
            Já em Angola, o contrato português foi um pouco diferente do Congo. Contudo, as relações foram também tensas em uma parte da história. Segundo os autores Priore e Venâncio:

... a colônia de Angola é fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais, que objetivera um contrato de colonização da mesma na corte portuguesa. Seu objetivo consistia em ampliar o tráfico de escravos e tentar suplantar os negócios da comunidade afro-portuguesas, que transacionava cativos em São Tomé. Quando, em 1579, pressões da metrópole o obrigam a executar seus contratos, o rei Ndongo manda matar todos os portugueses presentes em sua Corte, dando início a uma guerra que durou até 1671[13].

            Em Angola apesar dos confrontos as relações entre portugueses e a população angolana foi menos conflituosa. Ao contrário do que aconteceu no Congo, Portugal não se preocupou enfaticamente em disseminar a fé católica em território angolano preocupando mais em “ ter acesso direto aos mananciais escravistas monopolizados pelo Congo e das riquezas minerais da região”[14]. Na África Centro-Ocidental, os vários povos possuíam uma proximidade cultural e lingüística entre si significativa. Assim, a assimilação de culturas de forasteiros se dava de uma maneira bastante fluida. Dessa forma, a influência cultural portuguesa em Angola foi notória, isso sem contar com o índice de mestiçagem entre nativos e portugueses que era alto. Além do mais, o costume dos povos da África Centro-Ocidental de migrarem para outras regiões, os valores e códigos portugueses presentes em Angola foi disseminado de uma forma ou de outra para o restante do continente.



[1] OLIVA. A história da África em perspectiva.
[2] KI-ZERBO. História da África Negra, p. 263.
[3] KI-ZERBO. História da África Negra, p. 263.
[4] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas , f. 41.
[5] LOVEJOY. A escravidão na África: uma História de suas transformações.
[6] PRIORE; VENÂNCIO. Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica, p. 102.
[7] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas.
[8] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas.
[9] PRIORE; VENÂNCIO. Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica, p. 112.
[10] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas.
[11] PRIORE; VENÂNCIO. Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica, p. 147.
[12] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas, f. 55.
[13] PRIORE; VENÂNCIO. Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica, p. 152.
[14] REZENDE. As “Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas, f. 58.

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