Desde o período antigo
havia contatos de europeus com africanos. No entanto, foi à partir do século XV
que esse contato se intensifica devido o aumento do tráfico de escravo,
principalmente via Oceano Atlântico[1]. Portugal, no século XV, assim como toda a Europa,
passava por crise de metais preciosos, principalmente para comprar as
especiarias vindas da Ásia, como: “A pimenta, o pimentão, a canela, o gengibre,
constituíam, como os tecidos preciosos, a seda e o índigo, os principais
artigos importados da Ásia”[2]. O comércio de especiarias, além de ter o problema da
dificuldade em conseguir metal precioso, os produtos passavam por muitas mãos
de modo que o consumidor final pagaria um preço altíssimo. Juntando esses
fatores ao desejo de conhecer Prestes João (lendário e um rei poderoso
econômica, social e politicamente, além de detentor de forças sobrenaturais)
para combater os islâmicos, já que acreditava-se que eram infiéis, fez com que
D. Henrique de Portugal incentivasse a criação e absorção de tecnologia para
conseguir “almas” para Cristo e comércio mais favorável, criando uma nova rota
para as especiarias.
Felizmente, os navegadores europeus tinham aperfeiçoado um tipo de veleiro robusto com superestruturas elevadas, que resistia bem ao mar alto: a caravela. Se a isto acrescentarmos a adoção da pólvora para canhão, inventada pelos chineses, e a sua adaptação às armas de fogo, o emprego da bússola e a invenção de um novo tipo de leme, vê-se que estavam reunidos os meios técnicos necessários para a realização dos objetivos europeus[3].
Então,
apesar de hostilidade e indecisão dos europeus em encarar a aventura do Oceano
Atlântico, eles o fizeram intensificando o contato entre a Europa e a África.
Voltando a África, ela era detentora
de culturas diferentes entre si e, ao comparar com os europeus, as divergências
também eram enormes. A África Atlântica seguiu o padrão diversificado do
restante do continente. Segundo Rodrigo Castro Rezende, que trabalha na
perspectiva das identidades culturais, suas origens e a interpretação de ambas
em várias culturas em sua dissertação de mestrado intitulada – As “Nossas Áfricas”: população escrava e
identidades africanas nas Minas Setecentistas - disse que as relações
portuguesas na África, à partir do século XV, poderiam ser pela força, impondo
o Império Português, reprimindo líderes e a população, instituindo a catequese,
a língua portuguesa e outras ações ou pela negociação, fazendo uso de alianças
comerciais, por exemplo.
E de acordo com o mesmo
autor:
A África ocidental foi a primeira região africana com que os exploradores portugueses tiveram contato. Região cercada pelo deserto do Saara ao norte e pelo oceano Atlântico ao sul, seus habitantes apresentavam uma infinidade de línguas e religiões diferentes, mas que em todo o caso, tinham como característica comum, a centralização do poder político[4].
Com a
chegada dos portugueses, o comércio passa a ser pouco a pouco orientado para o
Oceano Atlântico ao invés da tradicional via Deserto do Saara, além de ter
aumentado o número do tráfico de escravo. Ao longo dos fatos, o comércio
escravista pelo Oceano superou o que era feito pelo deserto[5]. Essa mudança de foco fez com que regiões ficassem
importantes no ponto de vista comercial e financeiro:
Com a chegada dos portugueses (...) tudo mudou. Eles queriam virar para o lado do Atlântico o comércio do Sudão e da Senegâmbia, dirigido, tradicionalmente ao norte, via Saara. A abertura para o Atlântico fez crescer a importância sociopolítica da região como eixo de penetração de interesses europeus e como desembocadura de produtos do interior para a costa[6].
Os portugueses faziam
negociações com os senegâmbios desde o ano de 1445 e tinham como intermediárias
pessoas denominadas de lançados ou tangomanos. Eles eram cristãos-novos e eram
geralmente casados com mulheres locais e, dessa forma, entraram em processo de
“africanização” (termo usado para pessoas de origem européia que por causa da
convivência na África adota de forma significativa códigos e valores de alguma
etnia africana). Os lançados foram responsáveis por uma extensa miscigenação
sangüínea e cultural. Participaram de ritos de passagens como: casamentos a
moda de uma etnia africana, tatuagem e juramentos de sangue, além de participarem
de provas mágicas e em alguns casos tornaram bígamos. Assim, percebemos uma
nítida africanização e, por causa disso, os lançados perderam vínculo com
Portugal colaborando com a ascensão do comércio holandês, inglês e francês e,
esta realidade fez com que, poucos escravos da região da Senegâmbia viessem
para o Brasil já que grande parte dos lançados era descendente de portugueses
ou um lusitano[7].
Já na
Costa do Ouro, Portugal começou a negociar produtos para adquirir escravos e
ouro, além de reconhecer a soberania do rei de Mina. Com a União Ibérica, em
1580, a Holanda passa a rivalizar com os portugueses quebrando com a hegemonia
dos lusos. E, além do mais, com a quebra de predomínio português na Costa
Ocidental beneficiou os Estados africanos já que teriam mais controle sobre os
produtos e o aumento da procura de escravos, por exemplo. [8] Mas essa região africana também foi beneficiada com a
presença do tráfico: “A chegada de produtos americanos e asiáticos,
introduzidos pelos europeus, diversificou as culturas. Milho, mandioca, tomate,
cebola, berinjela, batata-doce e girassol contribuíram para acelerar o
crescimento das populações”[9].
No
entanto, as relações portuguesas e brasílicas foram tensas e na África
Ocidental. O islamismo colaborou para reduzir a influência do Império
Português. Já as relações portuguesas e brasílicas na África Centro Ocidental
foram mais amistosas em relação a porção Ocidental do continente[10]. No Congo, africanos eram aportuguesados ao viajar à
passeio para Portugal e Afonso I, que foi rei do Congo, entre 1506 e 1543,
adotou uma política de abertura com os portugueses. “O novo soberano cristão
tinha profunda admiração pelas ciências e técnicas européias, compreendendo
rapidamente que dela poderia extrair benefícios. Além disso, ao suceder seu
pai, quis fazer do catolicismo a religião do Estado”[11]. No entanto, o catolicismo apesar de ter uma certa
aceitação era muito superficial e dotado, primeiramente, de conveniência
política entre animistas e católicos enfraquecendo, assim, a influência lusa.
“Assim, logo as disputas internas pelo poder no Congo entre as facções
animistas e cristãs fizeram com que boa parte da nobreza congolesa se tornasse
anti-portuguesa e rompesse as alianças amigáveis entre os ‘reinos’ de Portugal
e do Congo”[12]. Dessa forma, foram vistas várias guerras civis no
Congo e os traficantes europeus não portugueses acabaram por dominar a costa
congolesa reduzindo as influências comerciais, culturais e religiosas lusitana.
Já em
Angola, o contrato português foi um pouco diferente do Congo. Contudo, as
relações foram também tensas em uma parte da história. Segundo os autores
Priore e Venâncio:
... a colônia de Angola é fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais, que objetivera um contrato de colonização da mesma na corte portuguesa. Seu objetivo consistia em ampliar o tráfico de escravos e tentar suplantar os negócios da comunidade afro-portuguesas, que transacionava cativos em São Tomé. Quando, em 1579, pressões da metrópole o obrigam a executar seus contratos, o rei Ndongo manda matar todos os portugueses presentes em sua Corte, dando início a uma guerra que durou até 1671[13].
[4] REZENDE. As
“Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas
Setecentistas , f. 41.
[7] REZENDE. As
“Nossas Áfricas”: população escrava e identidades africanas nas Minas
Setecentistas.
[8] REZENDE.
As “Nossas Áfricas”: população
escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas.
[10] REZENDE.
As “Nossas Áfricas”: população
escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas.
[12] REZENDE.
As “Nossas Áfricas”: população
escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas, f. 55.
[14] REZENDE.
As “Nossas Áfricas”: população
escrava e identidades africanas nas Minas Setecentistas, f. 58.