domingo, 25 de janeiro de 2015

Gênero e dispositivo da sexualidade

            Para Michel Foucault - em sua obra História da Sexualidade I: A Vontade de Saber - a sociedade Ocidental à partir dos séculos XVI e XVII até o século XIX quando buscaram esquadrilhar, definir e ocultar o sexo acabaram por mostrá-lo e afirmá-lo. Criou-se durante esse período mecanismos que aumentaram os discursos a respeito do sexo com o intuito de descobrir verdades sobre o assunto. No século XIX esse discurso passa a ser mais “científico” já que esse pensamento é unificado com uma medicina evolucionista e sujeita a racismos oficiais. O discurso médico passa a ter efeito de verdade absoluta já que era “neutro” e “era provado cientificamente”, no entanto o que se via era uma moral higienista que unia a “doença” e o “pecado”. O sexo dentro da medicina do século XIX era fortemente influenciado pelo evolucionismo reprodutivo. Esse discurso do sexo reforçou a sua legitimidade[1].
            Foucault acredita que a história da sexualidade deve ser feita através da história dos discursos. Para esse autor as pessoas são controladas e normatizadas por vários mecanismos de poder. O poder está presente em todas as partes de uma relação, seja ela forte ou fraca. As relações são dinâmicas, flexível e pode manter esquemas de dominação grandes como pode levá-los a ruina. Os pontos de resistência são inúmeros e que servem para atacar e para apoiar ao mesmo tempo. Percebe-se que em uma relação de poder, temos resistências (no plural) e não resistência (no singular). O saber está relacionado diretamente com o poder. A dualidade opressor e oprimido não tem sentido para Foucault, dois elementos que se confrontam em algum aspecto acabam sendo parceiros em outro e o discurso não é a realidade e sim uma mistura de poder e saber[2].
            Para Guacira Lopes Louro, em Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista, explica que as relações de gênero estão relacionadas com as relações de poder. No entanto o que determina as relações de gênero não são simplesmente a diferença entre o corpo masculino e o corpo feminino, mas a construção feita em relação à eles:
É necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico. Para que se compreenda o lugar e as relações de homens e mulheres numa sociedade importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo o que socialmente se construiu sobre os sexos. O debate vai se constituir, então, através de uma nova linguagem, na qual gênero será conceito fundamental[3].

            As estratégias globais de dominação presentes no século XVIII, segundo Foucault, que estão presentes no dispositivo da sexualidade são quatro: a histerização do corpo feminino, as normas de procriação socializadas, a medicação do sexo “perverso” e a pedagogização do corpo infantil. O dispositivo da sexualidade impõe normas para controlar os desejos carnais, os corpos e o prazer. Para isso todos deveriam seguir um padrão “normal” de sexualidade. Isso estava a princípio ligado somente à burguesia, mas com o tempo isso foi passando para o restante da população ocidental[4].
            Para Guacira Lopes Louro, apesar de a sociedade eleger um padrão de comportamento social para o sexo isso não significou que os “não normais” deixaram de exercer poder até porque espaços foram criados para o discurso desses “fora do padrão”[5].
            Percebemos então que estudo de gênero não é uma relação de homem forte e dominador contra a mulher fraca e dominada, mas sim um complexo de relação discursiva onde ambos ganham e perdem ao mesmo tempo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber. 11 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 4 ed. Petrópolis: Vozes. 1997.




[1] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[2] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[3] LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista p. 21.
[4] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[5] LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista.

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