domingo, 25 de janeiro de 2015

A classe dominante no século XVIII na França pouco antes da Revolução Francesa

RESUMO: É muito normal, quando se estuda a Revolução Francesa, entender que a classe dominante, que antecede esse marco histórico, é a soma da nobreza com o clero. No entanto existe outra versão para esta análise o que será o objetivo deste texto. Esse trabalho defende a idéia que a classe dominante estava presente em todos os três estados.

PALAVRAS CHAVES: França, estados, revolução, classe, dominante.

            Quando o Estado francês tinha como característica feudal nos aspectos econômicos e sociais estava claro que a classe dominante era a nobreza e o clero. Porém, segundo Theda Skocpol em seu livro - Estados e Revoluções Sociais: Análise Comparativa, da França, Rússia e China - com o século XVIII, a França:
Já não era “feudal” no sentido político ou jurídico. Mas também não era “capitalista” – nem no sentido de classe “empresarial” nem no sentido marxista de uma classe que se apropria – de mais-valias mediante uma força de trabalho assalariada e das rendas e que reinveste de modo a expandir as relações capitalistas de produção e a industrialização[1].

            Segundo Paul Kennedy em seu livro: Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000, desde o século XVII o país passava por situações favoráveis a descentralização do poder político da nobreza de espada e do estado. De acordo com essa obra a descentralização da cobrança de impostos com venda de cargos públicos na França causava um sistema inadequado de finanças[2]. Para Georges Lefebvre, em O surgimento da Revolução Francesa, o monarca tem o direito de enobrecer alguém:
O rei pode enobrecer e sempre recompensou dessa forma os seus servidores; nos séculos XVI e XVII, tendo adquirido o costume, para obter dinheiro, de vender as funções públicas – sobretudo as judiciais, mas também as financeiras, militares, administrativas e municipais -, ocorreu-lhe a idéia de enobrecer alguns desses cargos ou offices, para elevar seu preço[3].
            Dessa forma com o surgimento da nobreza de toga, a de espada perde o monopólio perante os cargos, títulos e funções. Como os cargos eram caros, os enobrecidos eram de sua maioria, ricos e habilidosos em aumentar o patrimônio pessoal. Com isso a distância entre a nobreza de espada e a de toga diminuiu fazendo com que parte dos nobres de sangue passasse a aceitar esses novos nobres. Os enobrecidos utilizaram de dotes de casamento com a nobreza de espada o que acelerou o processo de aceitação entre eles e o comportamento, dos que passaram pelo processo de enobrecimento, se assemelhavam com aqueles que já nasceram nobres em pouco tempo.
Na verdade, freqüentemente tentou-se dissociar a nobreza de toga e imputar unicamente aos parlamentares, funcionários indisciplinados, o enfraquecimento do poder real no século XVIII; incontestavelmente, estes tinham seus próprios interesses, e Montesquieu, por exemplo, defendera a venalidade dos cargos; mas a nobreza de espada, embora sempre invejasse a nobreza de toga, já não a julgava inimiga, unindo-se a ela contra o poder central: a cada crise, os Estados provinciais sustentavam os Parlamentos, e vice-versa[4].

            A corrupção de financista e despreocupação com o crescimento da dívida no país até a década de 1770 colaborava com a desordem econômica, social e financeira. A França se mergulhou em política imediatista. Impostos pesados em portos do país causava enfraquecimento da marinha e do comércio: perda das relações comerciais com os colonos do além mar. Em tempos de guerras a França possuía dificuldades de conseguir dinheiro. Quando conseguia não atendia as necessidades além de ter que pagar altos juros que eram superiores a de muitos países europeus. Os conflitos internos e externos prejudicavam as finanças[5].
Dessa forma podemos perceber que a dificuldade financeira fez com que as diferenças entre nobres e os burgueses ficassem mais flexíveis. Para Lefebvre a França era caracterizada por apenas duas classes: a nobreza e os plebeus. O clero é entendido aqui como uma profissão de caráter espiritual. O que distinguia o nobre dos outros era o nascimento. O sangue mostra a diferença entre o nobre e o camponês “desprezível”. O clero não poderia possuir uma profissão porque isso representaria um rebaixamento já que o aproximaria de um plebeu. Como a guerra não estava dando muitos lucros a sua ociosidade e o aumento de custo de vida na França causava empobrecimento de muitos nobres. Assim podemos perceber que os nobres vão perdendo o nivelamento econômico e consequentemente o social:
Os nobres da província levam uma vida menos dissipada; muitos possuem poucos bens e outros são pobres, sobretudo nas regiões montanhosas; esses “fidalguetes” são os mais fiéis às tradições e também os menos dispostos a concessões: temiam que a renúncia aos direitos feudais ou a obrigação de pagar mais impostos lhes causasse a ruína[6].

            Para Skocpol, a divisão da França em estados (primeiro, segundo e terceiro estados) não tinha sentido no século XVIII. A classe dominante seria os nobres ricos e os plebeus ricos que compraram cargos altos. A distinção do país por estados era mais uma zona de transição e menos uma barreira:
A distinção entre o primeiro estado (eclesiástico) e o segundo estado (nobre), por um lado, e o terceiro estado, por outro, representou no século XVIII mais uma flexível zona de transição do que uma barreira – pelo menos na perspectiva dos grupos dominantes. Cada estado constituía na verdade uma verdadeira barreira aos níveis médios da ordem social em larga medida assente na riqueza e na detenção de cargos[7].

            Terras e cargos para Skocpols significava elevação social. A riqueza em bens imóveis faziam nobres ricos e proprietários ricos uma mesma classe socioeconomicamente dominante.
Mesmo os membros mais abastados do terceiro estado baseavam as suas fortunas em misturas de rentes, cargos venais, bens imobiliários e direitos senhoriais. Taylor sustenta enfaticamente que “havia entre a maioria dos membros da nobreza e o grupo de proprietários pertencentes às classes médias uma continuidade de formas de investimentos que fazia deles, economicamente, um grupo único. Nas relações de produção desempenhavam um papel comum”[8].

            Percebe-se também que a classe dominante estava presente em todos os estados e não em um como às vezes somos levados a acreditar. O ponto de contradição na pré-revolução francesa não é o primeiro e segundo estado contra o terceiro e sim os proprietários ricos contra os mais pobres. Portanto a Revolução Francesa, só aconteceu a partir do momento que a monarquia deixava de atender as necessidades da classe dominante, presente nos três estados.

Referências Bibliográficas:


LEFEVRE, Georges. O Surgimento da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

SKOCPOL, Theda. Estados e Revoluções Sociais: Análise Comparativa, da França, Rússia e China. Lisboa: Editorial Presença, 1995.




[1] SKOCPOL. Estados e Revoluções Sociais: Análise Comparativa, da França, Rússia e China, p. 66 – 67.
[2] KENNEDY. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000
[3] LEFEVRE. O Surgimento da Revolução Francesa, p. 39 - 40.
[4] LEFEVRE. O Surgimento da Revolução Francesa, p. 45.
[5] KENNEDY. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000
[6] LEFEVRE. O Surgimento da Revolução Francesa, p. 39.
[7] SKOCPOL. Estados e Revoluções Sociais: Análise Comparativa, da França, Rússia e China, p. 66 – 67.
[8] TAYLOR. Noncapitalist Wealth, p. 471 apud SKOCPOL. Estados e Revoluções Sociais: Análise Comparativa, da França, Rússia e China, p. 69.

Gênero e dispositivo da sexualidade

            Para Michel Foucault - em sua obra História da Sexualidade I: A Vontade de Saber - a sociedade Ocidental à partir dos séculos XVI e XVII até o século XIX quando buscaram esquadrilhar, definir e ocultar o sexo acabaram por mostrá-lo e afirmá-lo. Criou-se durante esse período mecanismos que aumentaram os discursos a respeito do sexo com o intuito de descobrir verdades sobre o assunto. No século XIX esse discurso passa a ser mais “científico” já que esse pensamento é unificado com uma medicina evolucionista e sujeita a racismos oficiais. O discurso médico passa a ter efeito de verdade absoluta já que era “neutro” e “era provado cientificamente”, no entanto o que se via era uma moral higienista que unia a “doença” e o “pecado”. O sexo dentro da medicina do século XIX era fortemente influenciado pelo evolucionismo reprodutivo. Esse discurso do sexo reforçou a sua legitimidade[1].
            Foucault acredita que a história da sexualidade deve ser feita através da história dos discursos. Para esse autor as pessoas são controladas e normatizadas por vários mecanismos de poder. O poder está presente em todas as partes de uma relação, seja ela forte ou fraca. As relações são dinâmicas, flexível e pode manter esquemas de dominação grandes como pode levá-los a ruina. Os pontos de resistência são inúmeros e que servem para atacar e para apoiar ao mesmo tempo. Percebe-se que em uma relação de poder, temos resistências (no plural) e não resistência (no singular). O saber está relacionado diretamente com o poder. A dualidade opressor e oprimido não tem sentido para Foucault, dois elementos que se confrontam em algum aspecto acabam sendo parceiros em outro e o discurso não é a realidade e sim uma mistura de poder e saber[2].
            Para Guacira Lopes Louro, em Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista, explica que as relações de gênero estão relacionadas com as relações de poder. No entanto o que determina as relações de gênero não são simplesmente a diferença entre o corpo masculino e o corpo feminino, mas a construção feita em relação à eles:
É necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico. Para que se compreenda o lugar e as relações de homens e mulheres numa sociedade importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo o que socialmente se construiu sobre os sexos. O debate vai se constituir, então, através de uma nova linguagem, na qual gênero será conceito fundamental[3].

            As estratégias globais de dominação presentes no século XVIII, segundo Foucault, que estão presentes no dispositivo da sexualidade são quatro: a histerização do corpo feminino, as normas de procriação socializadas, a medicação do sexo “perverso” e a pedagogização do corpo infantil. O dispositivo da sexualidade impõe normas para controlar os desejos carnais, os corpos e o prazer. Para isso todos deveriam seguir um padrão “normal” de sexualidade. Isso estava a princípio ligado somente à burguesia, mas com o tempo isso foi passando para o restante da população ocidental[4].
            Para Guacira Lopes Louro, apesar de a sociedade eleger um padrão de comportamento social para o sexo isso não significou que os “não normais” deixaram de exercer poder até porque espaços foram criados para o discurso desses “fora do padrão”[5].
            Percebemos então que estudo de gênero não é uma relação de homem forte e dominador contra a mulher fraca e dominada, mas sim um complexo de relação discursiva onde ambos ganham e perdem ao mesmo tempo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber. 11 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 4 ed. Petrópolis: Vozes. 1997.




[1] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[2] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[3] LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista p. 21.
[4] FOUCAULT. História da Sesualidade I: A vontade de Saber.
[5] LOURO. Gênero Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista.